– EM NOVA PERFORMANCE MIDIÁTICA, O ESTADO DE SÃO PAULO PRECARIZA A VIDA ENQUANTO CRIMINALIZA A POBREZA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS –

O Núcleo de Antropologia NARUA da Faculdade de Saúde Pública da USP vem se manifestar pela necessidade de controle social e participação popular na reestruturação do território da Favela do Moinho, na região central de São Paulo.

O povo do Estado de São Paulo não pode ser eletrocutado, agredido fisicamente, machucado e mantido sob tortura com a justificativa incivilizada e a política ineficaz, altamente custosa, de guerra às (pessoas que usam) drogas, mantida no âmbito institucional da Segurança Pública sem qualquer fundamento científico ou inteligência transdisciplinar.

A perseguição de lideranças comunitárias por relação genealógica de parentesco deve ser registrada como modus operandi nas operações das forças de ordem ainda nos dias de hoje, reeditando uma associação perversa entre grupo doméstico e violência atmosférica.

O parentesco sob ataque no Moinho redimensiona o significado e o alcance espaço-temporal das lutas de famílias no Brasil, fixando a vida no presente a partir do luto como sofrimento social e afeto vazio de possibilidade de ação ou pensamento, que resulta de uma política fundada em dois aspectos: despossessão material e destituição relacional. Verifica-se, assim, a sociogênese da loucura e da dor, que ocorre por estratégias difusas de terror e perpassam diversas formas de ação institucional, em múltiplas instâncias de governo administrativo da morte, por meio de dispositivos técnicos que atingem escala populacional.

Genealogia não é crime! E não permite, sobretudo, inferir qualquer materialidade quanto à conduta pessoal ou padrão de comportamento; não constitui evidência capaz de relativizar a presunção de inocência, o direito à ampla defesa e ao contraditório, garantias e recursos que são dificultados sistematicamente ao povo no Estado de São Paulo e ao povo brasileiro em decorrência da tecnocracia, do racismo congênito, do déficit educacional estrutural e de um “sistema de justiça” que atesta sua própria impossibilidade ao produzir exclusão e oclusão, transformando desigualdades em iniquidades.

O Estado de São Paulo persegue pessoas suspeitas de crimes por linha genealógica de parentesco ao mesmo tempo em que precisamos gritar contra o ABOLICIONISMO INFANTIL, considerando os processos judiciais que resultam na perda da guarda de crianças por parte de seus responsáveis, com base em juízo arbitrário e de natureza moral, com recurso a premissas normativas descontinuadas no ECA desde o ano de 2019 mas que continuam a fundamentar decisões judiciais. Essa prática deve ser denunciada como espécie de conluio supremacista que envergonha nossas instituições ao aparelhar o Estado de São Paulo em combate contra o seu próprio povo, atualizando nesta data os dados do genocídio negro e a subjugação racial perene na estratificação da sociedade brasileira em classes sociais.

O episódio de brutalidade institucional na Favela do Moinho mobilizou as forças de ordem em manifestação quasi-ritual de sua violência, considerada legítima, e exercício ostentatório do poder institucional, cuja tradição autoritária produz cenas exemplares de suplício para diminuir a vida coletiva ao momento presente como “experiência vivida” de emergência.

O policiamento preditivo por critérios de raça, gênero e geração; a repressão violenta contra a classe trabalhadora; e o agravo amplificado ao corpo, com prejuízo interposto à saúde mental, produz um cenário de mortes evitáveis, violência psicológica e dinâmicas de alheação familiar, com graves resultados para o desenvolvimento cognitivo ao longo do curso de vida.

O ataque violento e amplamente qualificado às lideranças da Favela do Moinho, perpetrado contra mulheres por meio de técnicas de tortura, detenção sem flagrante ou mandato judicial, e causando lesões corporais, além de prejuízo psicológico, ocorrido na segunda-feira 08.09.2025, busca desestruturar os vínculos primários de parentesco consanguíneo como referência de segurança, instaurando a traição como est/ética relacional.

A violência crescente na região central de São Paulo, em processo de “cracolandização” das relações de autoridade e hierarquia no território, é sintoma de uma sociedade doente em que humilhar, hostilizar, maltratar, machucar, ferir, controlar, manipular, desterrar, prender, vigiar, punir e matar se tornaram atividades lucrativas, no contexto do capitalismo da violência, configuração sociohistórica em que a morfologia social e as trajetórias de mobilidade são definidas pelo trabalho da violência, com efeito direto no corpo comum e na mente coletiva, e rendimento efetivo, mais-valor investido na reprodução ampliada da concentração de bens e recursos materiais.

“É fragrante fojado dôtor vossa excelência”

Enquanto for suficiente o flagrante forjado para perseguir e eletrocutar lideranças comunitárias e mantê-las em prisão política no coração de São Paulo, estaremos diante de mais uma batalha vencida pelo Império, contra a Multidão.

As corporações de mídia tradicional estão treinadas para produzir narrativas ambíguas, veiculando preconceitos morais e buscando encobrir os crimes de Tarcísio de Freitas (desde o assassinato em Paraisópolis com ocultação de provas, durante a campanha). Nesse contexto, vimos chamar atenção para o sofrimento desnecessário e a experiência de dor que está sendo provocada em nossos irmãos em toda a região central de São Paulo, para os quais exigimos JUSTIÇA.

Com votos de paz e bem para a
Associação de Moradores da Favela do Moinho.

Prof. DIEGO MADI DIAS
diegomd@USP.BR

PROCAD Drogas 2025~30
Capes/SENAD – MJSP/BR